Acabo de ler na FSP que as ruas e logradouros próximos ao Liceu Coração de Jesus transformaram-se numa imensa cracolândia. Tal situação traz preocupação aos pais, acarretando prejuízos à escola com preocupante e significativa redução do número de alunos. Meu querido e velho Liceu não merece tal sorte. Dirigido pelos padres salesianos sempre foi exemplo de disciplina e bom ensino. Lá fiz meus estudos secundários na década de 50. Professores competentes contribuíram para moldar o caráter de muitos adolescentes que, como eu, deixavam a família no interior para freqüentar boas escolas na capital paulista. Morava relativamente longe e tinha que tomar ônibus ou bonde para chegar ao Liceu. A não ser na chamada hora do rush, a viagem era tranqüila e sossegada sem a caótica confusão do tráfego que hoje caracteriza São Paulo. Acomodados nos bancos dos ônibus da CMTC as pessoas sentiam-se seguras, com a certeza de que chegariam aos seus destinos, sem sustos ou sobressaltos, Quando os ônibus estavam muito lotados os chamados punguistas ou descuidistas, surrupiavam, com muita arte e sem violência, bolsas e carteiras dos menos avisados. Só ao chegar ao lar o cidadão dava-se conta de que fora “tungado” por algum esperto. Quando os costumes degeneraram e o uso da violência tornou-se rotina, os “mãos leves” remanescentes dessa época condenaram os novos métodos, que exigem armas nas mãos e crack na cabeça, o que fugia dos padrões daqueles verdadeiros artistas que tinham, como Meneghetti, seus códigos de ética, mesmo para delinqüir.
É por tudo isso que li com assombro e perplexidade a notícia de jornal. Lamentei profundamente, pois na velha casa de ensino ficou parte de minha distante e irrecuperável mocidade. Que Deus tenha misericórdia do Liceu!